Estou fazendo um curso de extensão na UFRRJ chamado “Modernidade: o cinema antes do cinema”, que tenta sinalizar uma espécie de “pré-cinema” na virada do 19 pro 20, olhando para os movimentos em literatura, artes plásticas e fotografia. Basicamente, a proposta é provar que o cinema já estava sendo “preparado” na mentalidade dos homens do final do 19, junto à idéia da vida moderna e da vida na cidade. Na bibliografia, teóricos tipo Walter Benjamin e Baudelaire, preocupados com a vida dos homens e o reflexo nas artes.
O que me surpreende é a dificuldade de simplificar os fatos: enquanto procuramos sinais “cinematográficos” em contos, quadros e esculturas, basta lembrarmos que o cinematografo dos irmãos Lumiere nasce em 1895. Ora, “O Homem da Multidão” não é um sinal de que Allan Poe já previa o cinema com seu detalhamento de imagens e de movimentos, mas sim que o cinema nasce no mesmo contexto do conto. Odeio ser contra-factual, mas, em exemplo, se o cinema tivesse surgido no Renascimento, certamente carregaria a mesma característica das obras literárias ou imagéticas do período.
O grande vilão da história é pensar no cinema como um “passo necessário” para a sociedade do final do 19, ainda que lembrando que esse nasce como indústria de entretenimento. Pensar que o movimento acelerado dos bondes e das pessoas nas ruas da cidade é um “anuncio” de que surgirá uma nova arte que tem o movimento como premissa é ridicularizar as inúmeras tentativas de “cinema antes do cinema”, como o zootrópio, o teatro de luzes, os flipbooks e outros experimentos.
Nesse ponto de vista, ainda há o equívoco de ignorar o grande vácuo entre a invenção do cinematógrafo e o cinema narrativo. Faz-se entender que o cinema é uma seqüência das “outras artes” do período desconsiderando que os cinemas lotavam para ver um filme (no Brasil, eram chamados de “vistas”) de 4 minutos com um malabarista fazendo um número. Ora, porque não ver o malabarista ao vivo? O fascínio do cinema era muito mais que fruto do conteúdo, mas sim do avanço tecnológico e da ilusão de ótica de imagem em movimento. Os primeiros filmes, como esse exemplo, não tinham história, não eram narrativos, eram exposições (obrigado pela palavra, Juliana) de fatos artísticos ou cotidianos, mesmo quando encenados. O cinema nasce como realidade e ganha, logo em seguida, a característica lúdica ao perceber que era possível “modificar a realidade” na fita, criar ilusões que vão além das noções de “vida moderna”, “hiper estímulos” e outros sentidos atribuídos ao invento.
Não, o cinema não é um fato isolado, mas também não é um fruto exclusivo da modernidade. Ele não carrega os sinais da literatura, ele é contemporâneo a ela e, portanto, o cinema e a literatura carregam os mesmos sinais do período. A diferença é que a matéria prima da literatura é a palavra e a do cinema é o movimento. Se as palavras “correr”, “andar” e outras dão noção de movimento, ainda são palavras. O movimento de fato é uma exclusividade do cinema e isso que o caracteriza como diferente da música, da fotografia, do teatro e etc. Curioso usar o Allan Poe de exemplo, pois o cineasta Jean Epstein, grande teórico criador da teoria da fotogenia – que não é aparecer bem diante de uma câmera, mas sim “a forma como um objeto se comporta diante de uma câmera” – tem como obra-prima a adaptação de “A Queda da Casa de Usher”, também de Poe.
