Andei revendo e conhecendo obras do cineasta Francisco Cavalcanti. Cria da boca do lixo, dirigiu 20 filmes entre 76 e 89, todos com pouquíssimos recursos e com um alto retorno financeiro. O curioso é ver que o nome de Cavalcanti figura por 4 vezes a lista de filmes com mais de meio milhão de espectadores, sendo o seu cinema de uma fragilidade absurda. Porém, é possível perceber uma espécie de “fórmula” que faz o cinema de Cavalcanti ser bem aceito. Vou tomar de exemplo 4 obras do diretor, cada uma interessante em sua maneira: “Horas Fatais – Cabeças Trocadas” (1987), “A Hora do Medo” (1986), “Os Violentadores de Meninas Virgens” (1983) e “O Porão das Condenadas” que fez 544.563 espectadores em 1979.
Em todos os filmes, há a família como instituição em dois sentidos; primeiro, uma família rica ligada a criminalidade, a corrupção e a valores de negatividade envolvendo poder. Segundo, uma família humilde, onde o próprio Cavalcanti sempre enquadra seus protagonistas. A família humilde sofre algum tipo de atentado sexual da família rica e poderosa, normalmente algo associado a estupros, com cenas fortíssimas de sexo e violência. Desacreditados com o poder policial, Cavalcanti como protagonista normalmente aprende a manejar armas de fogo e começa a história de justiça com as próprias mãos, certamente com o bem vencendo ao final.
Pensem nessa fórmula nas mãos de um Charles Bronson. Temos “Desejo de Matar”. Pense nisso no Brasil e temos uma genial farofa de referências, um cinema de tentativas fracassadas que, ainda assim, se imprime e fica marcado para sempre na cinematografia do país. Em pensar que as tramas de vingança são pautadas em fortes cenas de estupro.... eis aí uma contradição do povo brasileiro, algo como o Mojica fala, que todo mundo tem um lado sádico e que o cinema pode servir para liberá-lo. Os “valores” morais de uma família que teve sua honra quebrada por uma raça de covardes e poderosos, com o sentimento de vingança que fica ainda mais latente com as carnais cenas de xoxotas, peitinhos e gritos! Impossível acusar Cavalcanti de praticar nudez gratuita. Aliás quem ainda acredita em nudez gratuita como um problema deveria ficar cego de vez.
É num filme como esse, com a intenção comercial e poucos recursos, que podemos tocar naquele ideal de uma estética de cinema exclusiva do Brasil. Aquela, que Glauber chamou de Estética da Fome e que ele levava aos festivais internacionais como a fina iguaria cultural, desacreditada por operários e vagabundos em geral que frequentavam as salas de cinema. Para mim, estética da fome é fazer 22 filmes idênticos, com a mesma estrutura, os mesmos cenários, a mesma cara... Estética da fome é valorizar um efeito especial caseiro e ainda fazer 500 mil espectadores, é colocar vagabundo pra apreciar sua própria mediocridade! É escrever uma cena em que o mocinho desperdiça uma granada só pra mostrar ela explodindo... Enfim, creio que a estética da fome, como propunha o Glauber, só foi alcançada por esses caras e, infelizmente, mal compreendida como lixo, no entanto ela só reproduz as condições do país sem precisar de cangaceiro rodando ou de poeta.



