O Carlos Reichenbach falou em alguma entrevista que os atuais cineastas não conseguem ver as cores como elas são, mas sim como a cor do plástico. Plástico, acredito, no sentido da vulgarização da cor, o que faz pensar no próprio plástico como material e suas cores completamente artificiais. Não tem como negar: filmes de sucesso com menores recursos cinematográficos (lê-se falta de talento ou má influência) certas vezes apelam pra cor, pra cor do plástico, para justificar a obra. Eu costumo brincar que não assisto nenhum filme que tenha paredes verdes. Aquele verdão vai dar senso estético pra tudo, qualquer coisa colocada diante de uma parede dessas está “bonito”. Outro calo são os cabelos coloridos. Se tem um cabelo rosa choque na cena, meu amigo, você também não precisa se preocupar com mais nada.
Joe Dante não é um novo cineasta, mas é um cineasta do material plástico. Eu poderia, e até gostaria, de elogiar a paleta de duas obras recém revisadas: The Howling (1981) e Gremlins (1984). Tudo é detalhadamente azul e vermelho. Em Gremlins, a luz da noite chega a ser tão azul e brilhante que fica meio evidente alguns momentos day for night. Em contraste, gravatas vermelhas, cinto vermelho, fogo, embalagens e uma imensidão de detalhes que ajudam a compor uma imagem fixa de “você está assistindo a Gremlins”. Em The Howling a lógica é parecida, talvez mais contida por não ser uma produção Spielberg e pelo próprio teor do filme ser mais sério, mas ainda assim há um mega preciosismo pra tratar dessa paleta.
Joe Dante não é um novo cineasta, mas é um cineasta do material plástico. Eu poderia, e até gostaria, de elogiar a paleta de duas obras recém revisadas: The Howling (1981) e Gremlins (1984). Tudo é detalhadamente azul e vermelho. Em Gremlins, a luz da noite chega a ser tão azul e brilhante que fica meio evidente alguns momentos day for night. Em contraste, gravatas vermelhas, cinto vermelho, fogo, embalagens e uma imensidão de detalhes que ajudam a compor uma imagem fixa de “você está assistindo a Gremlins”. Em The Howling a lógica é parecida, talvez mais contida por não ser uma produção Spielberg e pelo próprio teor do filme ser mais sério, mas ainda assim há um mega preciosismo pra tratar dessa paleta.
Agora eu mesmo me pergunto: qual a diferença desse plástico pra o que eu acabei de falar mal? A função do plástico. Ora, quem não se lembra dos caóticos gremlins, bonecões de borracha articulados sem sequer uma fina camada de óleo ou água pra que aquilo brilhe e pareça pele de verdade? Ao contrário dos lobisomens em The Howling, que por muito pouco não parecem bichinhos de pelúcia grostescos e orgânicos ou, em alguns estágios, aquelas pinturas faciais de festa de criança. O plástico em Joe Dante é essencial, e é aí que o trabalho de cores não soa como virtuosismo ou falcatrua, mas como coerência. Seja pra uma ambientação lúdica, como a Chinatown mais vermelha que o usual, ou mais sombria, como a cabana no meio da floresta, o visual está aliado ao formato, está aliado a uma série de escolhas lúcidas.
Me expliquem a função das cores em Wong Kar Wai, por exemplo. Eu não saberia explicar os motivos da câmera ter que passar por um objeto fluorescente a cada 5 min. As histórias do Kar Wai não pedem, necessariamente, essa ambientação (como acontece nos filmes do Almodóvar). Não cabe e eu nem quero pensar ou levantar uma lista de possíveis funções do plástico no cinema, o que ele pode representar e o que o próprio cinema pode exigir dele, mas seguindo a afirmação do Reichenbach, só posso concordar e concluir que os cineastas da atualidade deveriam pensar nisso com mais clareza. O plástico não é um objeto secundário, ele tanto pode fazer a diferença que chamam de cinema filmes meramente plásticos. Óbvio, a estética visual não é regrada, mas também não justifica sozinha toda uma obra, não legitima uma novela como cinema se ela for filmada com “visual de cinema”. Falta talento, falta entender o cinema como o que ele é e não como o que tem aparecido. Quer dizer, isso é só o que eu acho...