-
"Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição..."

-

25.12.10

Tudo é perigoso.

Férias, andei vendo uns filmes de oficina aqui da Baixada e projetos de conhecidos, algumas coisas dos cineclubes ao redor do país. Me incomodou o quanto os filmes são ruins. Não digo que por culpa de seus realizadores ou por incompetência docente, mas sim pela postura que forma todo esse sistema de realização.
Com a ideia de democratização da linguagem às comunidades pouco favorecidas, oficinas são criadas em todo o Brasil pra inventarem uma demanda inexistente: a expressão. Vendem a ideia de que o cinema é um instrumento de transformação, de autocrítica e de pensamento sobre a realidade pra uma galera que, em grande parte, não vive o audiovisual. Ensinam técnicas, pincelam teorias e enaltecem o fator “cultura”. Obviamente, falo de projetos que priorizam o fator social, que acreditam (talvez com o bolso) em tudo isso que eles pregam e, ainda, que o cinema pode ser uma solução ou alternativa profissional para aqueles alunos.
Ainda dentro desse discurso, atrelado a valorização da cultura popular, é engraçado o quanto um documentário sobre bola de gude ou sobre o futebol do campinho do bairro é mais constante que registros de mau saneamento básico, de esgoto a céu aberto e etc. Chega ser engraçada essa postura de “coisas boas da periferia” em resposta a um suposto preconceito ou exagero, que muitas vezes é verdade e faria sentido expor para propor mudanças.
Menos especificamente, as oficinas passam uma certa segurança para os alunos, garantem a exibição e a visibilidade das obras e dos nomes. Envolvidos por isso e pelo discurso de importância, de que estão fazendo algo muito importante, a maioria dos filmes metem os pés pelas mãos. A pretensão é evidente, é difícil ver um filme normal dentro desses pacotes, todos têm um compromisso de “mudar a vida” do espectador, de serem viscerais ou de trazerem um certo bom gosto estético para provar que a periferia, ou o termo que preferirem, também produz “alta cultura”. Um motivos da estagnação desse pensamento é a postura do Estado. Hoje, oficinas têm espaço dentro de um calendário oficial. Só no RJ dá pra falar do CineCUFA e do Visões Periféricas, festivais destinados a produções de oficina e de baixo orçamento em geral. Tudo, obviamente, olhando apenas o lado social, criando uma espécie de separação entre "filmes" e "filmes ruins de oficina que precisamos ver pra justificar a existência delas".
Enfim, esses segmentos parecem esquecer os referenciais estéticos de cada um e, feito predadores, tentam arrancar o que lhes interessam. E é essa suposta “importância” que faz, por exemplo, que alunos façam um filme sobre violência infantil com uma atriz de aparentemente 14 anos tentando convencer ser mãe de um menino de pelo menos 8. Talvez eles só quisessem fazer uma animação de Lego pra colocar no youtube...

Nenhum comentário:

Postar um comentário