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"Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição..."

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17.4.13

Morte Cega: um nascimento visionário


Engraçado pensar que dentro do panorama do cinema brasileiro possa existir um filme como “Morte Cega”, segundo curta do então crítico Pablo Villaça. Primeiro, precisamos evocar a máxima corriqueira de que o crítico é um cineasta frustrado. O que se esquece é que o papel do crítico é entender o cinema em sua totalidade, o que se reflete nos casos raros em que esses apostam em produções próprias.

Morte Cega” é, para não perder a chance, um cego no tiroteio do mercado nacional. Villaça esbanja domínio narrativo e linguagem cinematográfica, numa obra altamente referencial e claramente guiado pela paixão pelo cinema. Isso fica claro, sobretudo, nas cenas de diálogo e no desempenho dos atores, onde Villaça deixa claro o papel autônomo da arte cinematográfica, que existe para além das relações humanas. Quando os personagens comunicam-se, fica claro: isto é um filme e um filme não depende de vida. Portanto, coloca-se o cinema em primeiro plano, a contrariar a atual fase do cinema nacional e sua busca incessante pelo “realismo”.

Vale ressaltar a capacidade do estilo onírico empregada pelo autor, tendo como precedente apenas Luis Buñuel. Todas as supostas desordens narrativas, assim como o “tempo morto” (onde o personagem não faz nada esperando a história acontecer) são claros sinais oníricos. Qual a linearidade dos sonhos, afinal? Em paralelo, ainda, com “O Discreto Charme da Burguesia”, Villaça vai além ao fazer de seu personagem, roteirista, um elo não só de um sonho dentro de um sonho, mas de um filme dentro de um filme. Assim, a obra torna-se uma completa auto-referência, tornando inegável o domínio de linguagem de seu diretor.

Porém, o grande trunfo de “Morte Cega” está na presença de Geraldo Magela. Geraldo é uma espécie de Peter Falk em “Asas do Desejo”, de Wim Wenders. Um personagem que, diante o suposto surrealismo, faz uma ponte direta com a realidade consciente do espectador, servindo de elo entre o real e o imaginário. Em dado momento, o personagem principal comenta que seu filme só existiria com Geraldo Magela, e esse é também o caso do filme de Villaça. Vale ressaltar que muita gente não reconhece Peter Falk e, para esses, o filme de Wenders perde grande efeito. O mesmo seria impossível acontecer com a figura extremamente conhecida de Geraldo Magela. Ponto pro Pablo!

Ainda há um passo a mais dado no campo da auto-referência. O que poderia lembrar o roteiro de Charlie Kaufman para “Adaptação”, ao final cria um novo paradigma narrativo. Se o roteiro não existe, como existe o filme? Não é como no caso de Kaufman, que conclui o seu roteiro.

Por fim, faço desse texto uma súplica ao seu autor e aos eventuais leitores. Precisamos urgentemente de um longa-metragem de Pablo Villaça. Não desmereço o formato do curta, como o próprio filme faz numa piada, mas sabemos que o Longa atinge mais o público e pode circular com mais consistência. O grande público precisa conhecer Villaça para além de seus textos. O cinema brasileiro precisa entender que não é só de panelinha que se faz cinema de qualidade e que, em apenas 20 minutos, traça uma crítica de todo nosso mercado.

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