Engraçado
pensar que dentro do panorama do cinema brasileiro possa existir um
filme como “Morte Cega”, segundo curta do então crítico
Pablo Villaça. Primeiro, precisamos evocar a máxima corriqueira de
que o crítico é um cineasta frustrado. O que se esquece é que o
papel do crítico é entender o cinema em sua totalidade, o que se
reflete nos casos raros em que esses apostam em produções próprias.
“Morte
Cega” é, para não perder a chance, um cego no tiroteio do
mercado nacional. Villaça esbanja domínio narrativo e linguagem
cinematográfica, numa obra altamente referencial e claramente guiado
pela paixão pelo cinema. Isso fica claro, sobretudo, nas cenas de
diálogo e no desempenho dos atores, onde Villaça deixa claro o
papel autônomo da arte cinematográfica, que existe para além das
relações humanas. Quando os personagens comunicam-se, fica claro:
isto é um filme e um filme não depende de vida. Portanto, coloca-se
o cinema em primeiro plano, a contrariar a atual fase do cinema
nacional e sua busca incessante pelo “realismo”.
Vale
ressaltar a capacidade do estilo onírico empregada pelo autor, tendo
como precedente apenas Luis Buñuel. Todas as supostas desordens
narrativas, assim como o “tempo morto” (onde o personagem não
faz nada esperando a história acontecer) são claros sinais
oníricos. Qual a linearidade dos sonhos, afinal? Em paralelo, ainda,
com “O Discreto Charme da Burguesia”, Villaça vai além
ao fazer de seu personagem, roteirista, um elo não só de um sonho
dentro de um sonho, mas de um filme dentro de um filme. Assim, a obra
torna-se uma completa auto-referência, tornando inegável o domínio
de linguagem de seu diretor.
Porém,
o grande trunfo de “Morte Cega” está na presença de
Geraldo Magela. Geraldo é uma espécie de Peter Falk em “Asas
do Desejo”, de Wim Wenders. Um personagem que, diante o suposto
surrealismo, faz uma ponte direta com a realidade consciente do
espectador, servindo de elo entre o real e o imaginário. Em dado
momento, o personagem principal comenta que seu filme só existiria
com Geraldo Magela, e esse é também o caso do filme de Villaça.
Vale ressaltar que muita gente não reconhece Peter Falk e, para
esses, o filme de Wenders perde grande efeito. O mesmo seria
impossível acontecer com a figura extremamente conhecida de Geraldo
Magela. Ponto pro Pablo!
Ainda há
um passo a mais dado no campo da auto-referência. O que poderia
lembrar o roteiro de Charlie Kaufman para “Adaptação”,
ao final cria um novo paradigma narrativo. Se o roteiro não existe,
como existe o filme? Não é como no caso de Kaufman, que conclui o
seu roteiro.
Por fim,
faço desse texto uma súplica ao seu autor e aos eventuais leitores.
Precisamos urgentemente de um longa-metragem de Pablo Villaça. Não
desmereço o formato do curta, como o próprio filme faz numa piada,
mas sabemos que o Longa atinge mais o público e pode circular com
mais consistência. O grande público precisa conhecer Villaça para
além de seus textos. O cinema brasileiro precisa entender que não é
só de panelinha que se faz cinema de qualidade e que, em apenas 20
minutos, traça uma crítica de todo nosso mercado.

bravo!
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