"Segurança Nacional", em cartaz, e "Área Q" estão gerando comentários curiosos sobre a cinematografia brasileira. O primeiro impressiona com o comercianl na TV: caças, terroristas e etc. O segundo já está badalado na internet como o suposto primeiro filme de ficção científica brasileiro. De cara, lembro de alguns filmes futuristas dos Trapalhões, "Fofão e a Nave Sem Rumo" e o clássico "Areias Escaldantes", mas isso é outra história. O importante é que ambos os filmes têm o poder de impressionar por parecerem com as grandes produções com as quais estamos habituados. Pensando nisso, será que a discussão pela busca pela identidade do cinema nacional é mesmo necessária?
Um dos primeiros escritios sobre a estética do cinema brasileiro foi feita no Chaplin-club, primeiro cineclube brasileiro, de 1928. Já nesse momento, ainda sem a influência modernista, a turma de Octavio de Faria e Plínio Sussekind Rocha já sinalizava a busca por uma linguagem brasileira que envolvia basicamente a questão de recursos e anti-americanismo. Porém, essa identidade não está relacionada a uma exclusividade, mas sim à contribuição que essa nova estética pode dar ao cinema, como sinaliza o trecho sobre o filme "Barro Humano", atualmente perdido:
"Não é simplesmente uma forma brasileira de cinema -- o que faltamente seria uma forma mesquinha. É a contribuição do Brasil ao cinema-phenomeno universal. E é o cinema-obra de brasileiros." (O FAN, nº5 , junho de 1929)
Ainda num exemplo cineclubista, lembra-se muito de Paulo Emílio Salles Gomes quando o assunto é defesa do cinema brasileiro. A frase "o pior filme brasileiro nos diz mais que o melhor filme estrangeiro", geralmente citada errada (provavelmente aqui também), tornou-se uma máxima de um suposto extremismo a favor do nosso cinema. Porém, o contexto da obra de Paulo Emílio revela a preocupação por um público que reconheça a diferenciação no cinema como um reflexo do subdesenvolvimento do país.
"Rejeitando uma mediocridade com a qual possui vínculos profundos, em favor de uma qualidade importada das metrópoles com as quais tem pouco o que ver, esse público exala uma passividade que é a própria negação da independência a que aspira. Dar as costas ao cinema brasileiro é uma forma de cansaço diante da problemática do ocupado e indica um dos caminhos de reinstalação da ótica do ocupante." (GOMES, Paulo E. Salles - Cinema, tragetória no subdesenvolvimento)
Na perspectiva artística, o exemplo mais explícito deve ser a "Eztetyka da fome" do Glauber. Quando ele diz ao final que "O cinema novo é um projeto que se realiza na política da fome, e sofre, por isto mesmo, todas as fraquezas conseqüentes de sua existência" quer dizer justamente que as condições (no caso, com enfoque político ao falar em "fome") moldarão a estética -- por mais que seja difícil imaginar que isso seja genuíno depois de escrito. Se foi teorizado, passa a ser mais um reflexo da teoria que da "fome", não?
Na atual década, o pensamento estético e de "cinema brasileiro" fica restrito ao circuito de festivais e tudo que o circunda: a crítica especializada, os cursos superiores de cinema/audiovisual e qualquer outro nicho de teoria cinematográfica. Nesse meio, ao que parece, a idéia de uma unidade característica para o cinema feito no Brasil já caducou. Porém, quando "Segurança Nacional" e "Área Q" são divulgados, essa mesma crítica não fala em outra coisa além de "isso não parece filme brasileiro" ou que é uma tentativa de imitar Hollywood. Ao mesmo tempo, o grande público -- que não tem acesso ou arcabouço pra acompanhar uma Contracampo da vida -- reflete sobre isso explicitamente. Filmes de ação e sci-fi são uma resposta, segundo eles, a filmes de favela, sertão e sacanagem, ou seja, a uma unidade que caracteriza o nosso cinema. Destacar os tópicos que fazem essa visão ser coerente é desnecessário, mas basta entender que ninguém cria essa imagem gratuitamente.
Na atual década, o pensamento estético e de "cinema brasileiro" fica restrito ao circuito de festivais e tudo que o circunda: a crítica especializada, os cursos superiores de cinema/audiovisual e qualquer outro nicho de teoria cinematográfica. Nesse meio, ao que parece, a idéia de uma unidade característica para o cinema feito no Brasil já caducou. Porém, quando "Segurança Nacional" e "Área Q" são divulgados, essa mesma crítica não fala em outra coisa além de "isso não parece filme brasileiro" ou que é uma tentativa de imitar Hollywood. Ao mesmo tempo, o grande público -- que não tem acesso ou arcabouço pra acompanhar uma Contracampo da vida -- reflete sobre isso explicitamente. Filmes de ação e sci-fi são uma resposta, segundo eles, a filmes de favela, sertão e sacanagem, ou seja, a uma unidade que caracteriza o nosso cinema. Destacar os tópicos que fazem essa visão ser coerente é desnecessário, mas basta entender que ninguém cria essa imagem gratuitamente.
De certa forma, isso explica o sucesso do atual "cinema-saga" brasileiro, vide as recentes apostas em "Lula" e "Chico Xavier". São filmes bem feitos sobre grandes personagens brasileiros em tom emotivo e biográfico, o que naturalmente passa por cima das noções de favela, sertão e putaria -- ainda que sejam elementos presentes, são secundários ao centro, ao personagem. Por si só, já caracteriza um diferencial ao padrão popular estabelecido sem deixar de ser brasileiro.
Vamos ver se chego onde quero: "Segurança Nacional" e "Área Q" têm referenciais diferentes. O público interessado não irá comparar uma cena de pulo numa lancha em movimento com qualquer cena de "Tropa de Elite" ou "O Invasor", e sim com um Vin Diesel boladão. Sendo assim, as duas obras são exemplos recentes da possibilidade de articulação do debate sobre "o que caracteriza nosso cinema" nos meios formais e informais. O problema é que, se os filmes forem um lixo, a discussão volta pro cerco até que outro abalo explosivo apareça.
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