Não sei nem se isso existe, mas sempre gostei de reparar uma coisa específica nas narrativas em cinema: como a história dialoga com o público? A que ponto o público tem autonomia de consciência sobre a trama e os acontecimentos de um enredo? Sempre usei a expressão ponto de vista narrativo pra comentar sobre isso com alguém e, pelo meu desconhecimento, talvez exista um nome formal pra isso. Mas enfim, o fato é que acabo de assistir "Diaboliquement Votré", último filme do Julien Duvivier, e não consegui reparar em nada além disso.
Basicamente, o personagem do Alain Delon sofre um acidente de carro e fica com amnésia no hospital. Sua mulher o leva para sua mansão, onde há um mordomo e um amigo do casal. Ele não reconhece nada, não consegue acreditar que a gostosa é sua mulher e que é rico pra burro. O público acompanha apenas o ponto de vista do personagem do Delon e é levado a se surpreender junto dele e a compartilhar de cada lembrança ou estranhamento junto ao personagem, inclusive de um sentimento de desconfiança -- que é o ponto chave desse filme. Em certo momento, junto à crise de identidade do personagem, a narrativa se desgruda e nos revela diálogos e ações dos outros personagens envolvidos.
Antes de prosseguir, é necessário entrar um pouco mais a fundo nisso. Nos filmes Slashers (tipo os "Pânico" ou "Eu sei o que vocês etc"), esse ponto de vista é alterado a todo tempo pra alcançar sensações de susto ou de tensão. Para uma cena onde uma personagem passa por um quarto e um assassino a surpreende saindo do armário: se o público não sabe que ele está no armário, tomaremos um susto. Caso saiba, fica a tensão e a expectativa para que aconteça. Outro exemplo, já na narrativa policial, é o seriado Columbo. No começo de cada episódio, nem vemos a cara do detetive vivido por Peter Falk, mas acompanhamos com detalhe um assasinato e conhecemos seus personagens. Somos cúmplicies de um crime. Quando o detetive entra em cena, a graça torna-se acompanhar o personagem desvendando aquilo que você já sabe, um exercício dialético de torcer contra e afavor.
Um exemplo contrário está na famosa Trilogia dos Apartamentos de Roman Polanski. Exceto por "O Bebê de Rosemary", que se justifica no final, "Repulsa ao Sexo" e "O Inquilino" têm pontos de vista narrativos tão agregados aos seus personagens centrais que é impossível acreditar em qualquer coisa a partir do momento que percebe-se que estamos "entrando na onda deles". O barato é curtir a loucura que a linguagem e a narrativa nos oferece, independente de resultados ou explicações."Clube da Luta", atrocidade bastante assistida, também trabalha com a imersão do espectador na loucura do personagem central, apesar de usar mal o recurso narrativo em alguns momentos a fim de concluir que "estávamos te enganando, otários". Exemplo mais prático, talvez, é "Mulher Invisível". Desde o título, sabemos que a mulher não existe. Quando a Luana Piovanni aparece na tela, estamos no ponto de vista do Selton, que a imagina. Quando não, estamos no ponto de vista dos outros. Nesse caso, as cenas mais engraçadas propostas pelo roteiro são justamente essas do Selton falando sozinho e etc. Sabemos que ela é invisível mas não achamos engraçado quando podemos a ver, tal como o personagem do Selton encara com naturalidade. Talvez isso exemplifique com precisão a potência do b om uso que eu quero me referir como ponto de vista narrativo.
Voltando ao filme que acabo de ver, agora levando em conta que nada do que falei está relacionado a idéia de "surpresa" com o público: quando finalmente estamos curtindo o barato do personagem do Delon (será que eu sou isso mesmo? essa é mesmo a minhar mulher? etc), a narrativa se desprende dele e começa a nos revelar o que não é de exclusividade daquele personagem. Nada demais, se não fosse a sacada de Duvivier trabalhar nisso com subjetividade. Em vez de responder as perguntas que tínhamos, lança dados novos que somam muito pouco para a nossa visão de personagem, mas que acabam por criar uma ambientação única pela mistura de surpresa e tensão. É difícil explicar, mas parece que a revelação parcial, ao invés de nos deixar sabendo mais (supremos ao) personagem, nos embaralha ainda mais dentro da narrativa.
Foi a primeira vez que vi ou reparei em algo do gênero. A surpresa maior foi que do Duvivier tinha visto apenas "Pépé le moko", que nem acho tão legal.
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