Já vi 2 outdoors aqui em Nova Iguaçu anunciando o Sonhos Roubados da Sandra Wernerk. O filme foi exibido no III Iguacine, infelizmente atrelado a um padrão de “referência” graças a fortíssima divulgação do evento. Só um comentário sobre isso, antes de continuar: a maior dose do Iguacine foi o secretário de cultura da cidade anunciar o “Cinco Vezes Favela” como um filme do Cacá Diegues. Na verdade, é um filme pensado dentro do CPC (Centro Poupular de Cultura), que através de atividades cineclubistas acabou juntando o Leon Hirzman, o Joaquim Pedro, o próprio Cacá e muita gente que faria parte do Cinema Novo mais tarde. Dizer que o filme é do cara, além de politicagem (ele esteve presente num dia de festival, é normal que sua imagem seja supervalorizada), é muita falta de responsabilidade pra um evento dito “de referência”.
Pois bem, voltando aos outdoors: me surpreendi quando vi no jornal que o “Sonhos Roubados” não está sendo exibido em nenhum cinema da Baixada. Certamente, apostaram no boca-a-boca do festival e resolveram mandar um “lembrete”. Na real, isso é o mesmo que colocar anúncio de tênis numa cidade de pernetas. Qualquer pessoa que sentir-se interessada em assistir ao filme terá que se deslocar. A contradição, na verdade, está no fato do festival (que tem como discurso o “acesso a obras audiovisuais de qualidade” e toda essa demagogia de reprimido e pobre coitado sem cultura) ajudar a criar uma “migração cultural”, por assim dizer. O boca-a-boca nos atinge, os outdoors e cartazes nos atingem. Já ficou claro que a região tem potencial pra circulação do cinema brasileiro.
O mais importante é deixar claro que não se trata de bairrismo. Estou me escorando no discurso do festival, no discurso encontrado em muitas atividades culturais sa Baixada. Quando lemos no release, por exemplo, que “o projeto é uma estratégia de inclusão produtiva e subjetiva dos moradores da cidade, buscando contribuir para o direito ao acesso público de práticas culturais” percebemos o caráter de 1) situar os “moradores da cidade” como excluídos de práticas culturais e 2) situar o projeto como estratégia de solução. Talvez tenha ficado mais claro a contradição de ver aqueles outdoors e a tática de divulgação de um filme que sequer dará as caras no circuito comercial da região.
Isso fica claro até quando o discurso não se pretende dessa forma. O secretário, em entrevista a um blog dele mesmo, disse que “a cidade está de parabéns, pois já compraram a idéia do Iguacine. Sobretudo, isso mostra que a periferia não é lugar de carência e sim de potencia. Acabou esse conceito de que a periferia vai receber cultura. Agora ela também faz!”. Quer dizer, graças ao reconhecimento do festival, a periferia “também faz” e pensa em cultura. Conceito mais centrista que esse vai ser difícil encontrar, a começar pela separação cultural do espaço sem pensamento de motivações ou necessidades. O bom e velho discurso que transparece que cultura é uma só e nós “também” a fazemos.
O Iguacine é uma ótima atividade e só vejo qualidades no evento, seja em estrutura, em conteúdo ou em movimentação. O problema é o discurso. Ele bate em contradições que vão dos outdoors que aparecem na rua até a própria fala: ora, se o discurso do festival é que “agora a periferia faz”, isso não devia parecer uma coisa surreal a ser lembrada ou enfatizada a todo tempo. É normal. E sendo assim, só precisa existir. Mas política é assim mesmo.
Pois bem, voltando aos outdoors: me surpreendi quando vi no jornal que o “Sonhos Roubados” não está sendo exibido em nenhum cinema da Baixada. Certamente, apostaram no boca-a-boca do festival e resolveram mandar um “lembrete”. Na real, isso é o mesmo que colocar anúncio de tênis numa cidade de pernetas. Qualquer pessoa que sentir-se interessada em assistir ao filme terá que se deslocar. A contradição, na verdade, está no fato do festival (que tem como discurso o “acesso a obras audiovisuais de qualidade” e toda essa demagogia de reprimido e pobre coitado sem cultura) ajudar a criar uma “migração cultural”, por assim dizer. O boca-a-boca nos atinge, os outdoors e cartazes nos atingem. Já ficou claro que a região tem potencial pra circulação do cinema brasileiro.
O mais importante é deixar claro que não se trata de bairrismo. Estou me escorando no discurso do festival, no discurso encontrado em muitas atividades culturais sa Baixada. Quando lemos no release, por exemplo, que “o projeto é uma estratégia de inclusão produtiva e subjetiva dos moradores da cidade, buscando contribuir para o direito ao acesso público de práticas culturais” percebemos o caráter de 1) situar os “moradores da cidade” como excluídos de práticas culturais e 2) situar o projeto como estratégia de solução. Talvez tenha ficado mais claro a contradição de ver aqueles outdoors e a tática de divulgação de um filme que sequer dará as caras no circuito comercial da região.
Isso fica claro até quando o discurso não se pretende dessa forma. O secretário, em entrevista a um blog dele mesmo, disse que “a cidade está de parabéns, pois já compraram a idéia do Iguacine. Sobretudo, isso mostra que a periferia não é lugar de carência e sim de potencia. Acabou esse conceito de que a periferia vai receber cultura. Agora ela também faz!”. Quer dizer, graças ao reconhecimento do festival, a periferia “também faz” e pensa em cultura. Conceito mais centrista que esse vai ser difícil encontrar, a começar pela separação cultural do espaço sem pensamento de motivações ou necessidades. O bom e velho discurso que transparece que cultura é uma só e nós “também” a fazemos.
O Iguacine é uma ótima atividade e só vejo qualidades no evento, seja em estrutura, em conteúdo ou em movimentação. O problema é o discurso. Ele bate em contradições que vão dos outdoors que aparecem na rua até a própria fala: ora, se o discurso do festival é que “agora a periferia faz”, isso não devia parecer uma coisa surreal a ser lembrada ou enfatizada a todo tempo. É normal. E sendo assim, só precisa existir. Mas política é assim mesmo.


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