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"Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição..."

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30.3.11

Filmes essenciais: A Lira do Delírio


 “Um dia, quando inventaram a máquina de filmar, duas pessoas a pegaram e a colocaram em duas posições inteiramente distintas. Uma foi pra frente de uma estação, de uma fábrica e filmou o que estava acontecendo. Outra botou a câmera diante de uma coisa que ele mesmo inventou e estabeleceu que só ia acontecer o que ela determinasse. Então existem essas duas posições: a câmera que vê o que está acontecendo e a que vê o que eu quero que ela veja. (…) Com Lumière nas mãos eu tive agora que fazer outro filme, todo composto, um Méilès, pra juntar com aquele primeiro. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha que soltá-lo, do contrário ele não casaria com o outro.
Walter Lima Jr em entrevista pra Filme Cultura nº29, pg 68, 1978.

Depois dessas palavras, fica difícil traçar qualquer argumento pra apontar “A Lira do Delírio” como um filme essencial na filmografia mundial. É difícil explicar o ritmo dessa obra que é ao mesmo tempo lírica e alucinante. Em uma atmosfera quase caótica de um emaranhado de personagens que se encontram, basicamente, num bloco fictício de Niterói com o mesmo nome do filme. É perceptível em cada cena que o filme estava, e portanto está, em construção. Ao mesmo tempo, essa sensação não é por motivos de falha ou imprecisão, mas pela evidente vontade de fazer um filme quase híbrido entre “resultado” e “tentativa”. Em “A Lira” os personagens tem o mesmo nome de seus atores, uma tentativa que ao mesmo tempo naturaliza as atuações e torna-as falsas.
A sensação quase inexplicável de estar laçado pela lira é, a grosso modo, a de uma curiosidade prazerosa, ao tentar entender como a mise-en-scène pode parecer ao mesmo tempo improvisada e milimetricamente ensaiada. De qualquer forma, o resultado é uma coisa só. E se o resultado é capaz de fazer você questionar os métodos, temos aí uma obra de cinema. Não estamos sendo “enganados”, volto a dizer que acredito fielmente no guru: “o cinema é a arte das aparências”, mais que qualquer outra. A fotogenia, de Epstein, não era o que entendemos sobre “fotogênico” ser aquilo que sai bem na foto, mas sim “como as coisas se comportam quando filmadas”. E, nesse sentido, “A Lira” é um filme onde a câmera dá uma necessidade fotogênica a seus objetos, e não o contrário.
Entrar de cabeça em “A Lira do Delírio” é observar como a linguagem do cinema é frágil, como ela pode ser abalada com precisão sem virtuosismo, sem viadagem e sem ferir. Filme essencialíssimo.

No Youtube (#) Na Zingu (#) Rodrigo de Oliveira (#)

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