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"Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição..."

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8.3.11

Revivendo Tati


Antes de qualquer coisa, aviso a todos que sou devoto de Jacques Tati. Pra mim, é o maior realizador do cinema francês, antecipou muita coisa em relação a linguagem e estética. Tati se situa num híbrido entre cinema silencioso e sonoro, utilizando o som para criar um tipo de hiperealismo dentro de uma narrativa não verbal. A câmera quase imóvel, os planos-seqüência e a textura apurada em todos os sentidos: simetria da fotografia, disposição das cores e preciosismo por linhas e formas. Fora da técnica, Tati interpretava em quase todas as obras o simpático Sr. Hulot. Um camarada que vive com um guarda-chuva, um cachimbo e teme muito a tecnologia. Desengonçado, lembra a tradição de personagens do cinema mudo, como em Chaplin e Buster Keaton, e ao mesmo tempo as grandes comedias como os irmãos Marx.
Tati falaceu e deixou o roteiro de “O Mágico”. Os camaradas do "Bicicletas de Belleville" adaptaram pra uma animação e, quase como mágica mesmo, reproduziram um Jacques Tati virtual atuando em seu filme perdido. Pra um fã declarado, como eu, é uma experiência interessante ver o apuro e a preocupação em reproduzir fielmente todos os movimentos clássicos de Tati, movimentações e expressões faciais. Em nenhum momento essa homenagem soa como uma caricatura, o que é um triunfo danado.
O único problema que vi em “O Mágico”, considerando ser um roteiro do Tati e uma homenagem ao cinema do coroa, é que a animação não dá conta da textura e do timing característicos. Tudo o que falei no primeiro parágrafo foi feito, os caras não são bobos. O problema é que a animação tem um tempo diferente. As cenas prolongadas, como Sr. Hulot chegando em seu apartamento em “Meu Tio” são impossíveis de fazer em animação. A animação pede um ritmo diferente, pede um estilo de humor mais dinâmico. Outra está relacionada ao som. Em qualquer filme do Tati, esse som que chamei de hiperealista é um som de material. Tudo faz muito barulho. Se uma mulher veste um tamanco de madeira, o som dos passos é completamente enfatizado. Se Hulot coça a cabeça, o barulho é como se estivéssemos coçando a nossa própria. Uma mosca parece um helicóptero. A animação, por sua vez, não consegue dar a idéia material pra esses elementos. Um desenho é uma forma, uma representação. Imaginem as cenas finais de “Traffic”, com os limpadores de pára-brisa, sendo um desenho animado. Não funciona (quem não viu, http://www.youtube.com/watch?v=LuKexB2VlrM ).
É a falta de materialidade da animação que distancia “O Mágico” das outras obras de Tati. Em outras palavras, até pra resumir (to escrevendo sem paciência já) foi o máximo que a animação conseguiu fazer para reproduzir e se referenciar a um estilo de cinema. Infelizmente, Tati é um cineasta de texturas e materiais. Quando tudo (ou seja, o metal, o plástico, o pano e etc) se transforma em pincel, o som deixa de ser hiperealista para ser algo comum a todas as animações, que dão a textura dos materiais através do som (se você quer mostrar numa animação que uma coisa é de madeira, ela vai ter som de madeira). Ainda assim, foi uma grande surpresa e não é uma obra menor por isso. Não estou exigindo uma cópia fiel, até porque seria impossível. Tati em vossos corações. Amém.

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